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POETA É O POVO

POESIA

POETA É O POVO

POESIA

09
Jul17

OS VENDILHOES DO TEMPLO


sopa-de-letras

 

Giordano_Luca-ZZZ-Expulsion_of_the_Moneychangers_f

 

Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.

Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."
23
Nov13

PORQUE O POVO DIZ VERDADES


sopa-de-letras

Sábado, 13 de Agosto de 2011
AA-PORQUE O POVO DIZ VERDADES

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

23
Nov13

NAO CREIO NESSE DEUS


sopa-de-letras

Sábado, 13 de Agosto de 2011
AA-NAO CREIO NESSE DEUS

Não Creio nesse Deus

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

23
Nov13

SER DOIDO-ALEGRE


sopa-de-letras

Sábado, 13 de Agosto de 2011
AA-SER DOIDO-ALEGRE QUE MAIOR VENTURA

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

 

06
Nov13

O BEIJO MATA O DESEJO


sopa-de-letras

 

MOTE

«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»

GLOSAS
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.

Roubando um, mil te daria;
O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!  

António Aleixo, in "Este Livro que Vos Deixo..."

 

06
Nov13

AA-QUADRAS


sopa-de-letras

 

Sei que
pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço,
Que, sem parecer o que
são,
São aquilo que eu pareço.

 

 

Um homem sonha
acordado,
Sonhando, a vida percorre,
E deste sonho dourado
Só acorda
quando morre.

 

Sem
que o discurso eu pedisse,

Ele falou; e
eu escutei.

Gostei do que ele não
disse;

Do que disse não
gostei.



Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…


Chegasses
onde pudesses;

Mas nunca devias
rir

Nem fingir que não
conheces

Quem te ajudou a
subir!



Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.


Mesmo que
te julguem mouco

Esses que são teus
iguais,

Ouve muito e fala
pouco:

Nunca darás troco a
mais!



Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.


Se te
censuram, estás bem,

P’ra que a sorte
te perdure;

Mal de ti quando ninguém

Te inveje nem te censure!

 


 

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