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POETA É O POVO

POESIA

POETA É O POVO

POESIA

07
Dez13

ALONE


Maria Letras sopa-de-letras

Segunda-feira, 15 de Outubro de 2012
ALONE

Quando o sol se apaga

E o luar nao se acende

Desce o manto negro

Abafando a solidao

Envolvendo a angustia

Soltam-se da alma

Gemidos esvoacantes

Como penas de gaivota

Atingida em pleno voo

Sem a luz do sol

Nao se pode ver o ceu

Sem a luz do luar

Nao se podem ver as estrelas

 

by Maria Letras

07
Dez13

A ALMA DAS ARVORES


Maria Letras sopa-de-letras

Sexta-feira, 26 de Outubro de 2012
A ALMA DAS ARVORES

 

 

- As árvores, meu filho, não têm alma!

 E esta árvore me serve de empecilho…

 É preciso cortá-la, pois, meu filho,

Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!

Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!

Deus pôs almas nos cedros… no junquilho…

Esta árvore, meu pai, possui minha’alma!…

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:

“Não mate a árvore, pai, para que eu viva!”

E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,

O moço triste se abraçou com o tronco

E nunca mais se levantou da terra!

                         

A Árvore da Serra, Augusto dos Anjos

07
Dez13

HOJE NAO


Maria Letras sopa-de-letras

Domingo, 28 de Outubro de 2012
HOJE NAO, MEU AMOR, HOJE NAO

 

 

 

Hoje nao venhas bater-me `a porta

Nao venhas interrogar o meu olhar

Tenho a alma rastejando quase morta

Buscando algo que a ajude a levantar

 

Hoje nao venhas falar de amor

Ha chagas abertas no meu coracao

Nao pises, distraido, sobre a dor

Que doi e se contorse em tua mao

 

Hoje nao, amor da minha vida

Hoje nao sou tua , nem de ninguem

Sou apenas uma sombra perdida

Esperando o milagre que nao vem

 

Abro os bracos ao universo

Pedindo sua ajuda e proteccao

Que a dor expressa neste verso

Possa enfim, chamar sua atencao

 

Nao sei se hei-de viver ou morrer

Igual peso nos pratos da balanca

Vivendo, morro por te nao ter

Morrendo, vivo na tua lembranca

 

Hoje, nao  toques a campainha

Quero viajar ao fundo de mim

Penetrar nesta dor apenas minha

Perpetua-la,........... ou de uma vez por todas, .......dar-lhe um fim.


BL

07
Dez13

FECHADA NA CONCHA


Maria Letras sopa-de-letras

Sexta-feira, 2 de Novembro de 2012
FECHADA NA CONCHA

 

 

As vezes doi-me o peito

Do lado do coracao

Por causa deste jeito

De nao ouvir a razao

 

E vou lutando comigo

Sem ser capaz de vencer

Escondida em meu abrigo

Torturando este meu ser

 

As vezes odeio o mundo

E a sua perversidade

E outras ate confundo

Sacanagem com bondade

 

E fecho-me dentro de mim

E deixo de ver o ceu

Ate que um dia , por fim

Volto outra vez a ser eu.


BL

07
Dez13

ESTORIA DO MEU NOME


Maria Letras sopa-de-letras

ESTÓRIA DO MEU NOME

 

 

por sopa-de-letras, em 05.10.13

 

Mê avô era abegão

Mê pai era fêtori

Lutando pelo sê pão

Á chuva e ó calori

 

Nasci no monte da Caêra

No sítio onde fui gerada

Sou filha duma cefêra

Sou neta da Ti Bernarda

 

Quiseram dar-me ó nasceri

O nome de Liberdadi

Mas isso nã pôde seri

Por regras da sociedadi

 

Tudo era censurado

E a palavra era perigosa

E o mê padrinho, zangado

Nã quis saber de mais prosa

 

A madrinha atarantada

Sem nada mais lhe ocorreri

Lá chamou então Bernarda

Aquele pequeno seri

 

D'avó herdei sem quereri

E da outra qu'herdaria?

Nã há muito que saberi

Sê lindo nomi Maria

 

 

Mas certo dia um pastori

Olhando p'ra criancinha

Disse,

Que nomi feio, que horrori

 

A partir de hoje, és Nádinha.

 

BL 

07
Dez13

IGNORANCIA


Maria Letras sopa-de-letras

 

 

 

 

 

As dores que trago no peito

So eu as posso sentir

Nao acho quando me deito

Ninguem com quem repartir

 

As lagrimas para secar

E ninguem aqui por perto

Nem p'ra me acompanhar

Quando atravesso o deserto

 

Como pode alguem falar

Daquilo que desconhece

Se nao esta ca p'ra chorar

Quando o meu dia alvorece

07
Dez13

TERNURA


Maria Letras sopa-de-letras

 

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma...
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

 

Vinícius de Moraes

 

Poema de Vinicius de Moraes

Foto de Maria Letras

07
Dez13

MELANCOLIA


Maria Letras sopa-de-letras

Ao entardecer, tudo parece mais triste e deprimente

Caiem dentro de nos, as sombras do fim de dia

A falta de quem amamos, doi-nos  profundamente

E no nosso coracao nasce, a mais bela poesia

 

 

Poema de MDM

Foto retirada da internet

07
Dez13

TRABALHO SOBRE FLORBELA ESPANCA parte 2


Maria Letras sopa-de-letras

Gentilmente cedido por Jose Frota , a quem agradeco o trabalho e a autorizacao para publicar.



 

José Frota

 

 

A ANTIGA ALUNA FLORBELA ESPANCA

SEGUNDA PARTE

Depois de ontem ter procedido à divulgação da Primeira Parte divida,em dois capítulos , retomo hoje a história da vida e obra da nossa ex-colega.

Em 1920 Florbela tem o seu primeiro amante na pessoa de António José Marques Guimarães,alferes de artilharia da Guarda Republicana, com quem vem a casar-se,de novo civilmente, em Junho de 1921, depois de se ter divorciado do primeiro marido. Guimarães é entretanto colocado no Porto pelo que ambos vão viver para Matosinhos, terra dele. Florbela abandona a Faculdade de Direito (está no 3º. ano) , mas quando menos esperam, Guimarães é obrigado a voltar a Lisboa por ter sido nomeado Chefe de Gabinete do Ministério do Exército. Florbela demora-se ainda algum tempo para deixar as coisas em ordem . Dois meses depois do seu regresso sai o seu segundo título, "Livro de Soror Saudade", recheado de poemas criados no breve espaço de ausência do marido. Não tardará muito, contudo, a ter de rumar a Matosinhos para se tratar de novo aborto que a deixa, como o anterior, muito abalada.

Depois ninguém ao certo o que se passou. A correspondência trocada em ambos continua a revelar, segundo os especialistas na exegese dos referidos textos, «uma mulher saudosa do corpo do marido-amante e que sem constrangimentos lhe confessa o seu desejo- atrevimento que ultrapassa em muito o consentido para a época».
O certo é que a circunstância do médico responsável pelo seu tratamento ser Mário Pereira Lage, amigo do marido, que conhecera dois anos antes como médico do exército e que a cobiçara desde o primeiro momento em que a vira, não augurava nada de venturoso. O prolongamento da sua ausência em Matosinhos, os pretextos invocados para o adiamento do regresso a Lisboa, o seu temperamento fogoso em termos carnais e a noção de que Lage, nove anos mais velho e pouco escrupuloso não desperdiçaria a oportunidade para conseguir os seus intentos tiraram a Guimarães qualquer dúvida sobre o que estava acontecendo.
O marido acaba por receber sem surpresa, ainda que com profundo desgosto, a carta em que ela lhe anuncia, já viver com Lage, solicitando-lhe o divórcio pois pretendia casar-se com ele o mais brevemente possível. Escreve então à família a explicar a sua decisão. Temos conhecimento das razões por ela invocadas na missiva que escreve ao irmão Apeles, com carimbo de 29 de Dezembro de 1923 e na qual começa por lhe dizer que esta o vai surpreender e penalizar. Para prosseguir:« Mas entendo que é melhor dizer-te eu própria tudo o que há de novidade em vez de deixar que aos teus ouvidos cheguem malevolências que te podem dar de mim uma ideia errada e injusta».
Relata então de forma inesperada e pouco convincente que há dois anos tem sofrido «um calvário de humilhações, grosserias e brutalidades por parte do marido pelo que resolveu liquidar tudo simplesmente sem um remorso,sem a mais pequena mágoa.». E para quem assumia possuir um grande amor pelo irmão, remata desta forma estranha: «Pensa de mim o que quiseres que estou disposta a aceitar tudo, mesmo o teu esquecimento. Tua Bela.»
Em 1925 casa com Mário Lage pelo civil e depois pela Igreja indo viver para casa deste em Esmoriz. A família corta relações com ela e acusa Mário Lage de a estar a manipular psicologicamente usando drogas fortes no seu tratamento o que a leva a vir contradizer-se sobre a vida feliz que dizia levar com Guimarães, difamando-o agora e lançando sobre ele o labéu de ser um individuo reles e de mau carácter.
Florbela vem a Évora para tentar a conciliação mas é recebida com hostilidade quer pela família que não lhe abre a porta, quer pela população. Populares apedrejam-na quando, em companhia de Milburges Ferreira, a Buja, amiga de infância, passeia no Jardim Público envergando uma provocante saia-calça.
Agustina relata mesmo este episódio na sua autobiografia. Também eu o ouvi narrado com maior soma de pormenores, há cerca de 45 anos,da boca das suas ex-colegas, Maria do Carmo Almeida e Lídia Amália Nogueira que figura a seu lado na fotografia de 1917 em que ambas aparecem trajadas. Segundo o testemunho de Maria do Carmo e Lídia Nogueira, Florbela foi corrida à pedrada e acoimada de "puta","rameira" e "maluca" e a perseguição só terminou na Praça de Giraldo, quando se refugiou na loja de modas e confecções para senhora, " A Parisiense", situada no nº. 50 e que era propriedade do comerciante Serafim César da Silva. Este reconheceu a sua estimada cliente e imediatamente lhe abriu as portas, acolhendo-a com todo o cavalheirismo e simpatia. A talhe de foice, diga-se que este simpático e gorducho comerciante era apaixonado por coisas francesas e parisienses, possuindo ainda ao longo das arcadas a conhecida "Kermesse de France" (desaparecida apenas nos primeiros anos já deste século) e o celebérrimo café-restaurante "A Brasserie".

De regresso a Matosinhos isolou-se cada vez mais e continuou a escrever tendo sempre por temas o amor,a solidão, a vida,a morte, o Alentejo e a natureza, numa expressão cada vez apurada do mais profundo, belo e tradicional lirismo. O modernismo literário de que tomara conhecimento através dos colegas de ofício no período boémio em que frequentou o "Café Gelo" e então muito em voga, não a cativara. E embora também cultivasse o conto e outras formas literárias era no soneto que pontificava emprestando-lhe um ritmo, uma melodia e uma sonoridade inultrapassáveis.
Dois anos depois acontecerá o facto trágico que a afundará irreversivelmente no quadro da doença psíquica de que desde sempre vinha padecendo.Seu irmão Apeles, também antigo aluno do Liceu de Évora, onde fizera o respectivo Curso Geral e os preparativos para ingressar na Escola Naval e era Primeiro-Tenente da Marinha, desaparece engolido pelas águas do Tejo quando ultimava as provas para obter o "brevet" de piloto-aviador, O seu corpo nunca será encontrado e a poetisa quis ficar com os destroços do aparelho.
Perde então por completo a vontade e a alegria de viver e entrega-se a um lancinante desgosto. Escreve então um livro de contos dedicado ao irmão com o qual se dizia ter tido uma relação incestuosa, que alguns analistas pretenderam ver confirmada nos «excessos verbais da escritora pela imoderação no modo de expressão», argumentando que essa «exaltação é fora do comum». Todavia, Agustina Bessa Luís, como Rui Guedes ( "Fotobiografia"), Maria Alexandina e a brasileira Maria Del Farra, consideram totalmente descabida essa hipótese e asseguram que tal sentimento era de natureza maternal e fora assumido desde a morte da morte precoce da mãe de ambos. Florbela ter-se-á obrigado desde então a preencher o seu lugar junto do pequeno Apeles no sentido de o orientar e proteger.
Entretanto a relação com Lage começa a desgastar-se. Lage já não quer nada com ela, passado o primeiro impulso de a poder exibir como troféu de caça. No ano seguinte Florbela apaixona-se pelo pianista Luís Maria Cabral a quem dedicará os poemas "Chopin" e "Tarde de Música". Fuma desalmadamente enquanto é submetida a tratamento muito forte, baseado em refeições leves e muito descanso. Os seus comportamentos estranhos e bizarros e os seus devaneios amorosos iam escandalizando a família do marido que lhe aconselha a mudança de ares. É assim que repudiada por Lage e sua família, decide afastar-se por algum tempo.
Voltemos a Agustina: « Todas suas perturbações, a emoção exaltada , o esgotamento, a intolerância aos alimentos, ao género de vida, a tuberculose encoberta, as dores de cabeça, todas as repugnâncias físicas e morais anunciam a instalação da nevrose. Provavelmente com o desgosto sexual aparece como o grande motivo de desentendimento no matrimónio.» Surge a primeira tentativa de suicídio.

Em 1929, Florbela decide vir passar uma temporada ao Sul. Passa por Lisboa e pede ao cineasta Jorge Brum do Canto para a incluir no filme "A Dança dos Paroxismos" mas este recusa-lhe a pretensão. Volta então para Évora, a terra que sempre adorou
apesar do mau acolhimento que a população lhe reservara cinco anos antes. Na nossa cidade começou a escrever o seu "Diário do Último Ano" , numa antevisão de que o seu fim poderá estar próximo.
Em Évora recomeça a colaboração com a revista "Portugal Feminino", enceta o mesmo tipo de trabalho com a revista "Civilização " e faz traduções do francês. Na cidade acaba por reencontrar António Marques Batoque, o seu antigo colega, já ilustre advogado e emérito cultor do Fado Coimbra, a quem aqui já nos referimos e ao qual oferece uma colectânea de poemas não editados mas já reunidos sob o título provisório de "Charneca em Flor". Batoque fica deveras entusiasmado com o que vê e promete dá-los a conhecer ao seu amigo Guido Batelli, professor da literatura italiana na Universidade de Coimbra.
O professor italiano nem quer acreditar na qualidade daquele tesouro literário que acaba de lhe cair nas mãos. De imediato entra em contacto com Batoque que o põe em ligação com Florbela à qual transmite a intenção de lhe editar "Charneca em Flor" como toda a sua obra.
A poetisa vai manter-se em Évora até ao Verão de 1930, onde parece ir recuperando paulatinamente a saúde, com a ajuda de alguns amigos . Aqui tira a sua última fotografia. Ainda com 35 anos, mantém-se elegante,longilínea, ancas estritas e busto pouco elevado, adoptando o estilo "charleston" estival que aconselha o vestido leve e vaporoso,pouco abaixo do joelho, de alças desnudando por completo os braços, chapéu, sombrinha, colar e cabelo à garçonne.
Mas Évora é longe de Coimbra e Guido Batelli aconselha-a a chegar-se mais para Norte dado que a sua vida universitária não confere muito tempo para se deslocar ao Alentejo, agora que está em fase de revisão de provas de "Charneca em Flor".

Florbela retorna a Matosinhos para rever as provas mas o marido e a família acolhem-na com a mais fria e brutal indiferença. Quando termina o trabalho é diagnosticado um edema pulmonar. Tenta de novo o suicídio. Lage e companhia espalham por todo o lado que ela não passa de um cadáver adiado por poucos dias. Às duas da madrugada do dia 8 de Dezembro de 1930 fecha-se no quarto depois e ter emborcado dois frascos de Veronal, um barbitúrico muito forte e diz adeus à vida. Ao que muitos disseram por estar apaixonada por Ângelo César, fugira grada no nascente Estado Novo e crítico literário,e já não dispor de condições de saúde para viver esse último amor.
No caso porém houve muito coisa de estranho. Lage e todo a classe médica de zona, por solidariedade de classe, recusaram-se a assinar a declaração de óbito que embora indique o referido edema como causa da morte está absurdamente assinada por um carpinteiro. E a Igreja recusou assistência religiosa ao funeral por suspeitar de suícidio.

AMANHÃ

A INFAME PERSEGUIÇÃO DE QUE FOI VÍTIMA
POST MORTEM


07
Dez13

TRABALHO SOBRE FLORBELA ESPANCA


Maria Letras sopa-de-letras

Gentilmente cedido por  José Frota ,  a quem agradeco o trabalho e a autorizacao para publicar.


A ANTIGA ALUNA FLORBELA ESPANCA

PRIMEIRA PARTE

Há cerca de dois meses, o Adelino Santos desafiou-me a escrever alguma coisa sobre a nossa antiga colega Florbela Espanca, a mais célebre das AALNE e ainda hoje tida como a maior poetisa, não obstante Natália Correia, Sofia de Melo Breyner e Maria Teresa Horta . Acontece que outro alguém já se havia antecipado e demonstrando profundo conhecimento sobre a vida e obra da nossa ilustre colega as dissecara admiravelmente e com aplauso geral. De modo que meti a viola no saco e qual o outro sapateiro remendão fiz igualmente questão em não ir além da chinela.
Mas porque faz depois de amanhã, dia 8 de Dezembro, 119 anos que Florbela nasceu e 83 que decidiu por termo à vida, eu resolvi, como seu grande admirador, evocar a sua vida, em jeito de homenagem a prestar-lhe. Este escrito será seguido de mais dois que ajudarão a rememorar o passado desta mulher que foi seguramente uma figura de excepção da sociedade portuguesa do seu tempo, arrostando com um destino trágico, amargo e cruel que traduziu numa obra de altíssima qualidade literária dominada pela solidão, pela ansiedade, o desespero, a vida e a morte, o erotismo, a feminilidade e o panteísmo.

Florbela (baptizada como Flor Bela) nasceu em Vila Viçosa no ano de 1894. Sendo filha ilegítima de Antónia da Conceição Lobo e de José Maria Espanca, inicialmente sapateiro e depois sucessivamente antiquário, negociante de cabedais, desenhista, pintor e apresentador cinematográfico. José Maria era casado com Mariana do Carmo Toscano, mas a esposa era estéril. Por isso conseguiu convencê-la a que ele tomasse como amante Antónia da Conceição, uma jovem serviçal muito atraente que lhe pudesse assegurar descendência, desejo que este sempre acalentara.
Dessa ligação nunca interrompida nasceram Florbela e três anos mais tarde,seu irmão Apeles, pelo qual ela sempre nutriu um amor obsessivo. Os filhos nunca viveram com a mãe. José Maria e Mariana levaram-nos para sua casa tendo esta sido madrinha de baptismo de ambas as crianças que foram registadas como filhos de pai incógnito.
Florbela frequentou a escola primária da sua terra natal entre 1899 e 1908 até chegar ao actual 6º. ano de escolaridade. Data de 1903, apenas com 9 anos o seu primeiro poema "A Vida e a Morte" antecipando já uma extrema precocidade na abordagem de dois temas em torno dos quais girará o se percurso literário e a sua reflexão. Em 1907 é acometido pelos primeiros sinais de neurastenia. O ano de 1908 será um ano decisivo na sua vida.Para lá de concluir a escola primária vê desaparecer Antónia Lobo, sua mãe, com 29 anos, vítima de uma estranha forma de neurose. Muitos verão nesta ocorrência os sinais da marca hereditária que afectará toda a sua existência.

É ainda em 1908 que a família vem viver para Évora. Morta a mãe dos filhos, João Maria Espanca vem para a cidade a fim de poder proporcionar a ambos a continuação dos estudos. A menina matricula-se no Liceu de imediato, integrando o seu primeiro núcleo feminino que em 1910 era composto já por dez alunas. No ano seguinte começa a namorar Alberto de Jesus Silveira Moutinho, seu colega. Tinha então 17 anos. Rompe rapidamente com Alberto e apaixona-se por João Martins da Siva Marques que muitos décadas mais tarde virá a ser o Director Nacional da Torre do Tombo.
Paixão efémera esta. Poucos meses depois Florbela completa o Curso Geral dos Liceus e e reaproxima-se de Alberto Monteiro com quem Vem a consorciar-se civilmente em 1913 em Évora no dia do seu 19º. aniversário (há exactamente 100 anos) . O casal fixa residência em plena Serra d' Ossa, Redondo, onde funda um colégio no actual Convento de S.Paulo e no qual lecciona e dá explicações, mas sem grande sucesso.
Dificuldades financeiras fazem-nos regressar a Évora e à casa dos Espancas. Na cidade, Florbela, vai continuando a escrever os seus poemas e enceta colaboração nas revistas nacionais " Portugal Feminino", "Modas e Bordados" (suplemento feminino do diário matutino "O Século" e os periódicos locais " Notícias d'Évora " e "A Voz Pública" enquanto termina no Liceu de Évora, em 1917, o Curso Complementar de Letras, com 14 valores e se inscreve na Faculdade de Direito de Lisboa.
A vida melhora um pouco e o par regressa a Redondo mas por pouco tempo. A poetisa tinha sofrido um aborto involuntário que lhe deixara sequelas nos ovários e pulmões, aparentando sintomas de tuberculose e refugiara-se ali para tentar recuperar. Mas como as melhoras não chegassem, antes pelo contrário, o seu estado de debilitamento físico e psíquico era cada vez mais preocupante,Florbela é aconselhada a ir para a serra algarvia para descansar e tratar-se.
A ideia agrada ao marido que por ali tem o irmão e a cunhada que são professores na então Vila Nova de Portimão. (CONTINUA)

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